A BÍBLIA É OU NÃO A PALAVRA DE DEUS?
Esta é uma questão que pode ser analisada de diversas formas diferentes.
É necessário que uma pessoa tenha fé, seja cristã, evangélica ou como vulgarmente costuma-se chamar, “crente” (o que, retirando-se a maneira pejorativa com relação ao uso costumeiro, quer dizer apenas alguém que acredita em alguma coisa, podendo ser até mesmo um ateu, pois este acredita em suas convicções) para acreditar que Deus fala com a humanidade através de suas Sagradas Escrituras ou a razão e um raciocínio lógico e aprofundado podem trazer a qualquer um esta mesma convicção?
Por que alguém, afinal de contas, chega a acreditar que a Bíblia é a Palavra de Deus?
Algumas pessoas realmente chegam a essa conclusão não através de seu próprio esforço em encontrar argumentos e comprovações convincentes, mas apenas por que outras pessoas ou mesmo a Igreja que passou a frequentar afirmam isso. Eles não necessitam de uma prova maior que testifique a favor das Escrituras, apenas a palavra destas pessoas ou instituições é o suficiente para convencê-las, sem que haja um questionamento interior quanto à veracidade destas informações ou não.
Mas qual seria o número real de pessoas que podem ser convencidas apenas com a frase: “A Bíblia é a Palavra de Deus”.
Muitos questionam a origem da Bíblia, alegam que não se pode comprovar que ela seja um livro diferenciado com relação a tantos outros, escritos pelas mãos de homens reconhecidamente ilustres, acima do padrão tido como normal pela sociedade.
Por que a Bíblia seria um livro inspirado por Deus, contendo aquilo que o criador de todo este universo infinito decidiu ser importante que nós, simples mortais, soubéssemos? Por que este livro e não tantos outros que poderiam ser citados, como o Bhagavad Gita, Alcorão, Livro dos Mórmons, Evangelho segundo o Espiritismo, Tao Te Ching, enfim, esta lista poderia ser grandemente ampliada. Por que a Bíblia deveria ser exclusivamente reconhecida como a única e verdadeira Palavra de Deus e não um destes citados ou mesmo, talvez, a busca por alguma união entre todos eles, sendo que todos os caminhos levariam a Deus?
É possível utilizar argumentos lógicos e racionais, que não possam ser contestados, para comprovar uma afirmação tão radical como esta? Ela simplesmente extingue qualquer possibilidade de se chegar a Deus seguindo um caminho ensinado por qualquer destes livros ou por seus escritores ou mestres, pois somente a Bíblia poderia nos levar a Deus.
Alguém que não esteja propenso a acreditar em uma afirmação tão radical pode encontrar uma base sólida para esta sua convicção ou, da mesma forma, pode comprová-la apenas com frases como esta: “Não acredito, e pronto!”.
Uma pessoa que busque uma posição imparcial, sendo descrente, mas buscando atingir alguma conclusão satisfatória com relação a este assunto, através de pesquisas, estudos, fatos históricos, raciocínio lógico baseado na razão e comprovação dos argumentos utilizados, teria maior chance de chegar a qual conclusão? Que a Bíblia seria verdadeiramente a única Palavra de Deus, comprovadamente um livro diferenciado com relação a todos os outros já escritos pela história da humanidade, ou que seria apenas mais um livro como os demais, escrito por homens e não divinamente inspirado?
É sobre isto que iremos tratar neste artigo, uma maneira de ajudar aqueles que queiram satisfazer sua capacidade de raciocínio e inteligência com relação ao livro mais lido na história da humanidade.
Como foi dito no início, existem várias formas de abordar o assunto. Pra começar, vamos analisar (de uma maneira superficial, pois este assunto está tratado de forma mais aprofundada em outro artigo deste Blog, intitulado Bíblia) as Escrituras Sagradas da mesma forma que todos os outros escritos antigos, para comprovar sua autenticidade.
O método utilizado pelos estudiosos e historiadores para comprovar a autenticidade de alguma obra antiga é basear-se nos originais, ou cópias destes, mais antigos e confiáveis que se possam encontrar. Dentre estes, podemos citar uma das maiores obras da antiguidade grega, as Ilíadas de Homero.
Esta obra é tida como autêntica, mesmo sendo praticamente impossível comprovar a autoria de seu escritor, pois pouco se sabe com relação a Homero. É uma obra reverenciada como um dos maiores escritos de todos os tempos e suas cópias mais antigas existentes são do séc. II e III depois de Cristo. Estima-se que Homero tenha escrito suas obras por volta de 900 a.C., sendo os registros mais antigos encontrado por volta de 400 a.C. É um documento com um número razoável de cópias, 643, havendo uma precisão na semelhança entre elas de 95% o que comprova com bastante segurança para os estudiosos sua autenticidade.
Utilizando-se este mesmo método para verificação da Bíblia, o que conseguimos?
Com relação aos Evangelhos e ao Novo Testamento, não existem relatos de outros escritos mais bem documentados do que estes.
Existem 5.600 cópias de originais que teriam sido escritos no I século depois de Cristo com uma precisão de 99,5% entre elas. Estes são números muito superiores a de qualquer outro escrito antigo considerado autêntico. Esta, por si só, é uma demonstração bastante contundente em favor da confiabilidade e veracidade do Novo Testamento.
Contestações contra estes argumentos podem ser apresentadas, mas também podem ser refutadas. Da mesma forma que há a necessidade de construir estes argumentos de uma forma lógica e racional, para contestá-los é necessário seguir este mesmo padrão.
Uma obra para ser considerada falsa deve apresentar algumas características, como dúvidas relacionadas a seus autores ou seus ensinos desde a época em que surgiram, a contestação desta autenticidade por parte de alguma pessoa idônea contemporânea do autor ou do surgimento das primeiras cópias, eventos registrados em épocas mais recente que a do suposto autor ou opiniões e estilo diferentes do conhecido deste autor.
Nenhuma destas características pode ser encontrada com os escritos do Novo Testamento, dentre outras que poderiam ser citadas.
Outra argumentação contrária é a de que estes escritos teriam sido compilados em uma época bem mais recente, podendo conter alterações ou acréscimos diversos, que descaracterizariam a obra como a conhecemos. Infelizmente para os que afirmam isso, não há nenhuma base sólida que possa confirma-la, não passando de mera especulação, de forma que sequer podemos nos esforçar em refutá-la.
Não é estranho que nenhum dos inimigos do cristianismo, que eram muitos, tenham contestado a autenticidade destes escritos ainda nos primeiros séculos? Na verdade, vários inimigos do cristianismo citaram fatos registrados nos evangelhos como sendo conhecidos de todos e tidos como autênticos até por volta do sec. IV.
Através das considerações que podemos fazer, os evangelhos foram escritos da forma em que os conhecemos, pouco tempo depois da crucificação de Cristo. Cristo foi crucificado por volta do ano 30 d.C., e o intervalo entre a sua morte e o primeiro livro do Novo Testamento é de 47 a 67 anos, sendo impossível em um período tão curto a fabricação de uma história como esta e sua disseminação com sucesso entre um grande número de pessoas.
Por que os apóstolos e os discípulos de Cristo teriam o interesse em divulgar sua história da maneira como a conhecemos? O que torna estes relatos diferentes daqueles que são aceitos pelos estudiosos como autênticos e confiáveis?
As Ilíadas de Homero, por exemplo, contam de uma forma épica o relacionamento entre os deuses que eles criam existirem e a humanidade de uma forma geral. Quando lemos uma obra tão bem escrita quanto esta nos envolvemos em seu enredo e podemos visualizar todos aqueles deuses “humanizados”, pois suas atitudes são muito parecidas com as dos seres humanos, brigando entre si, promovendo guerras, vingando-se de seus inimigos, apaixonando-se, enfim, tudo aquilo parece fantasioso e irreal demais para nós.
Mesmo que a Bíblia seja um livro comprovadamente autêntico pelos padrões exigidos, é muito difícil acreditar nos relatos que ela contém por que o que se afirma sobre eles é que são a mais pura verdade. É fácil ler as Ilíadas e gostar da história por que não se imagina que aquilo seja real, mas apenas uma história interessante com personagens fictícios.
Para se levar a Bíblia a sério deve-se acreditar que nossa realidade é muito mais fantástica do que qualquer história que a mente humana já tenha criado. É muito mais extraordinário do que as Ilíadas, do que qualquer história de Shakespeare, da Disney, de contos de fadas, super-heróis, ficção científica ou qualquer outra realidade alternativa que a mente humana já tenha criado.
O curioso é que a própria Bíblia afirma isso, quando diz que a palavra da cruz é loucura (1Co 1.18) e que visto que o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, agradou a Deus salvar aqueles que acreditarem pela loucura da pregação (1Co 1.21) ou ainda quando diz que Deus se levantará para fazer sua obra, sua estranha obra e para executar o seu ato, seu estranho ato (Is 28:21).
É difícil para as pessoas acreditarem nos relatos bíblicos por que o que a Bíblia tem a nos dizer é realmente muito estranho, fantástico e até mesmo absurdo! Ela nos fala sobre um Deus Todo Poderoso, que criou o universo e tudo o que nele existe do nada (ex niilo) apenas com o ato de falar (Haja luz! Gn 1.3) e que este mesmo Deus, através da pessoa de seu Filho, se fez carne e aceitou ser humilhado, cuspido, açoitado, crucificado e morto por aqueles a quem Ele mesmo criou e que são infinitamente inferiores.
Como aceitar uma ideia como esta? Como aceitar um Deus com tamanho poder que poderia fazer todo o universo desaparecer apenas ao som de sua voz, aceitar que algumas de suas criaturas o pregassem em uma cruz, nu e humilhado, após longas sessões de tortura e deixado ali para morrer?
Realmente parece estranho.
Algumas pessoas estão acostumadas com ideias como estas das ultimas linhas, mas para outras é algo completamente estapafúrdio! Muitos estão acostumados apenas com alguns pequenos trechos das Escrituras, pois ouviram falar em algum lugar ou em visitas a igrejas ou por diversas outras formas.
A Bíblia é um livro extremamente complexo para aqueles que quiserem se aprofundar em seus estudos, o problema é que a maioria das pessoas abraça um ou outro pequeno trecho e o transforma em um ideal de vida. Infelizmente, algumas crenças e religiões agem da mesma forma, não se preocupando em compreender o contexto do texto escolhido ou mesmo em tentar compreender como a Bíblia de uma forma geral trata aquele assunto.
Desta forma, a grande maioria das pessoas não conhece ou não tem o interesse em conhecer o que a Bíblia (ou seja, Deus) tem a nos dizer. Por isso é tão estranho quando ouvem falar em Deus encarnando e sendo crucificado através de Jesus, não estão acostumadas a imaginarem as situações sendo desta maneira.
Os ensinamentos bíblicos, dos evangelhos e de Jesus sempre soaram de forma estranha, isso não acontece apenas nos nossos dias, mas já vem desde a própria época do em que o Novo Testamento foi escrito.
Imaginem como deve ter sido absurdo para algumas pessoas que viveram na mesma época que Jesus ouvirem determinados ensinamentos seus. Ele disse, por exemplo, que a sua igreja seria triunfante contra tudo e contra todos, em qualquer momento na história (Mt 16.18). Como uma nova instituição que era rejeitada pelos judeus, desprezada pelos gregos e perseguida sem trégua pelos romanos poderia sobreviver? Todos os grandes sábios e poderosos da época se esforçavam por exterminá-la, Jerusalém foi completamente destruída, os judeus e cristão mortos, dispersos e perseguidos sanguinariamente. Como a igreja de um homem que foi humilhado e morto da forma mais ultrajante que se conhecia poderia sobreviver? No entanto, grandes impérios ruíram depois dessa profecia, enquanto a igreja permanece até hoje.
Um pouco mais acima indaguei sobre por que os apóstolos e discípulos teriam interesse em divulgar a história de Jesus, tal qual a conhecemos, se esta não fosse verdade? Que vantagem ou benefício eles poderiam ter em fazer isso? Eles foram perseguidos, torturados, martirizados, crucificados, decapitados, apedrejados e perseguidos incessantemente. Por que alguém que não tivesse plena convicção na veracidade dos fatos que defendia arriscaria sua própria vida por algo que não tivesse plena certeza de ser real? Por que não conhecemos relatos de cristãos que tenham confessado alguma fraude, mentira ou deturpação nos fatos diante das mais terríveis torturas que sofreram? Será possível que todos eles estavam dispostos a sofrer e morrer por uma mentira ou todos teriam sido enganados a tal ponto de aceitarem estes sofrimentos?
Com tantos perseguidores e tantas mortes era de se esperar que os torturadores conseguissem arrancar algumas confissões que pudessem comprometer a história do cristianismo e com isso barrar sua disseminação. Os interesses eram aparentemente muito maiores para os que queriam exterminar o cristianismo do que para aqueles que queriam divulga-lo. Não é no mínimo estranho que mesmo com tanto sangue derramado nunca ninguém, por mais poderoso, jamais tenha conseguido exterminar os cristãos?
Estamos acostumados com modas que passam, que em uma determinada época todos copiam e querem fazer parte, mas que em pouco tempo se tornam ultrapassadas. Muitas ideias surgiram e desapareceram ao longo dos séculos, estilos de vida, formas de governo, cultura, tecnologia, tudo se transforma ou desaparece com o correr dos anos.
Mas o cristianismo permanece há milênios! Infelizmente existem distorções e seitas que se recusam a buscar uma compreensão mais aprofundada dos ensinos de Jesus e seus apóstolos, entregando-se a textos isolados ou aplicando suas próprias verdades a estes textos, não levando em consideração o contexto e demais esclarecimentos que possam estar contidos em outros trechos.
Mas as Sagradas Escrituras permanecem, para que todo aquele que se interessar possa buscar suas verdades mais profundas e se unir a pessoas que procurem realmente interpretar os seus textos. Pequenas divergências sempre existirão devido à complexidade de seu conteúdo, mas para aqueles que a consideram a Palavra do Deus vivo e Todo Poderoso, é perfeitamente compreensível que não tenhamos a capacidade necessária para decifrar tudo o que Ele tem para nos dizer, pois é um ser infinito em sabedoria, conhecimento e poder. Temos que reconhecer nossas limitações, mas também não podemos desprezar a inteligência que Ele mesmo nos deu e aceitarmos que algo seja verdade ou mentira simplesmente por que alguém disse, mas devemos procurar nós mesmos compreender aquilo que nos é informado, para assim decidirmos o que é mais coerente, melhor embasado com argumentos e fatos através do raciocínio lógico e da razão que todos possuímos.
Portanto, se alguém diz que a Bíblia é a Palavra de Deus, procure comprovar de uma maneira satisfatória e que não possa ser facilmente refutada.
Da mesma forma, aqueles que pensarem de maneira diferente, procurem comprovar com argumentos tão bons quanto alguns destes que foram apresentados aqui.
Também é importante que os dois lados estejam preparados para refutar todas as objeções que possam ser feitas, afinal de contas, somente algo que é falso pode se opor a verdade. Duas verdades diferentes não podem coexistir. Ou uma está contida na outra e o que existe é um problema de interpretação ou então uma é falsa e a outra verdadeira.
Em outro artigo discutiremos argumentos a favor e contrários de uma forma mais exaustiva, por enquanto o que interessa é despertar a possibilidade de demonstração de que a Bíblia é um livro único na história da humanidade e que por isso, talvez você precise dar mais atenção ao que ela pode estar realmente dizendo ou não.